sábado, 14 de abril de 2012

Conto: Descobrindo-se

As chamas tinham vontade própria.  Pareciam querer percorrer além do monte limitado de folhas secas que as alimentava em sua base, envolvendo com seu laranja feroz cada fotografia que Anastácia atirava em suas labaredas.

O fogo era a destruição perfeita para o álbum de recordações da jovem, que após ser chamada de “garota com cabelos de fogo” durante toda a sua vida, aprendeu a ver nas chamas, a beleza que não via nela.

Foto após foto, seu passado ficava cada vez mais distante. A boa garota que se destacava por suas sardas na turma do colégio agora se transformava em cinzas. Ela se sentia diferente – Será por causa dos seus cabelos? – O desconforto que sentia perante aos outros lhe roubaram muitas noites de sono, - ela não gostava de ser diferente? Não gostava de como as pessoas a olhavam para ela, era como se não vissem nada além do que queriam ver. Como poderia dormir assim?

A foto que ficou em sua cabeceira até então agora ia para o fogo. Nela, ainda era uma criança de 2 anos, sorridente. Estava no colo de seu avô. Sua avó morreu ao dar luz aos seus filhos gêmeos idênticos que herdaram os cabelos castanhos e os olhos profundamente negros da mãe. Seu pai, estava ao lado do avô na foto, com a mão em sua cabeça, e seu tio, do outro lado,  exibia um sorriso amargo, de quem nunca poderia ter os próprios filhos.

Nessa época, ainda era feliz. Não tinha consciência que sua mãe, assim como sua avó, morreu no parto dela.

Ela parou alguns segundos para tentar resgatar a alegria da foto que segurava agora. Com cinco anos de idade, ela soprava as velinhas de seu bolo de aniversário. O pedido que fez naquele momento ainda era claro "Por favor, não de deixe ter filhos! Não quero morrer!", clamava em pensamento, com os olhinhos apertados.

Anastácia sorriu. Teve orgulho de si, pela relação que fazia entre a vida e a morte nessa idade. De fato, ela não mudou e esse pensamento só se aprimorou entre suas convicções no decorrer dos anos.

Queima.
Queima.

Anastácia nunca teve amigos. Isso ficou bem claro enquanto as fotos se desfaziam no fogo. Era mais fácil lidar com  os homens que ela cresceu e amadureceu, cedo demais, talvez. 

Enquanto seu tio viajava o mundo fechando grandes negócios de origem suspeita, seu pai, veterinário, passava todo o tempo que podia com bichos. Não confessava, mas gostava mais deles que de gente e essa  era a única coisa que Anastácia se parecia com o pai.

Ela não gostava de nada feminino demais, com exceção vestidos. Sempre se vestiu com eles por insistência do avô, que adorava vê-la assim. No fim das contas, não custava agradar, e foi por esse pensamento que até a adolescência Anastácia aprendeu coisas que não lhe davam prazer, mas julgava necessário, como ser zelosa com o lar, aprender os negócios do tio, cuidar de seu avô até a morte dele, e cozinhar as comidas preferidas de seu pai. 

Ela usava esses argumentos para deixar de conviver com outras pessoas, para ela, todas as relações eram superficiais demais, portanto, não valiam a pena.

Agora queimava a última foto de seu avô, abraçado com ela aos 15 anos, ambos estavam de branco, e ele acariciava os cabelos ruivos dela que tanto gostava. A única cor viva da fotografia. A última foto antes do câncer fatal derruba-lo em uma cama.

O último momento de vida do avô foi o único que Anastácia se sentiu realmente ligada a ele. Ficou fascinada, olhando fixamente para os olhos dele, enquanto o velho engasgava tentando dizer alguma coisa. Ela pensou em ir pedir ajuda, mas queria observar melhor. Era justo, afinal, tudo o que sabia sobre a morte se tratava dos relatos amargurados do pai sobre sua mãe e o que lia em livros e jornais. Estava na hora de admitir que a morte era única coisa que a interessava e atraía, e não poderia perder o momento em que ela chegava tão perto de seu avô. Não queria piscar, imagine sair atrás de ajuda? Impossível. Estava vidrada, estática, e sorrindo.

Quando o velho não teve mais forças para procurar o ar, e nenhum ruído saía mais de sua boca, os olhos se abriram mais do que parecia possível e as mãos enrijecidas fizeram uma sequencia de três movimentos rápidos, antes da cabeça virar para a direita, e a mão direita cair sobre a cama.

O show tinha acabado e Anastácia estava eufórica com a cena. Brincou um pouco com o avô, como se fosse um boneco, para ver conseguia movimentar sua mandíbula, criar expressões e ajustar os dedos em forma de "paz e amor"  e outros gestos menos nobres. Ao ver que era possível, soltou uma gargalhada como não lembrava de ter feito antes na vida, e concluiu que a morte era muito mais divertida que a vida. 

Sádica, sempre gostou de como essa palavra soa. 

A morte da mãe no parto lhe deu a vida e a morte do avô, mostrou a Anastácia como ela queria viver.

Foi assim que resolveu sair daquela casa. Seu pai não sentiria falta dela, e ela poderia trabalhar com seu tio pois já tinha aprendido tudo que era necessário para isso. Pegou então sua coleção de recortes de jornais sobre todos os crimes que chamaram atenção dela a vida toda, e que guardava, sem saber bem porquê em uma caixa desorganizada. Pegou também  seu álbum de fotos, o retrato de sua cabeceira e jogou na mala com alguns vestidos. Pegou sua bolsa e saiu.

Anastácia deixou sua mala em um hotel qualquer e saiu confiante de que se queria conhecer melhor a morte, teria que conhecer melhor a si mesma, e um pouco mais da vida, queria conhecer pessoas interessantes e ela estava disposta a tentar. Não queria mais ficar na sua zona de conforto achando que todos eram igualmente vazios.

Pegou então seus recortes de jornais e foi para o único café que conhecia. De lá, ligou para seu pai para avisar sobre a morte do avô, mas não achou necessário esperar qualquer reação. Desligou o telefone.

Escolheu uma mesa próxima a janela, diferente da mesa de frente para a parede que geralmente escolhia. Olhou pela primeira vez todos os seus recortes juntos e ficou surpresa ao constatar que todos tinham mulheres como vítima e que em metade deles, as mulheres eram ruivas. Mortas pelo chamado Red Eye.



Anastácia então terminou seu 3º café, estava elétrica, Red Eye sim era alguém interessante. Ele iria entender como ela se sentia em relação a morte e de alguma forma, por um momento ela entendeu que todas aquelas garotas ruivas tiveram que ser mortas porque decepcionaram Red Eye. Garotas vazias, ela pensou. Ele corria contra a superficialidade da vida e encontrava a morte.

Pensando nisso, ela suspirou. Lembrou de como se sentia mal quando mais nova, diferente por não ver sentido no teatro das relações humanas, e ficou feliz em pensar que seus cabelos ruivos,  justamente eles, poderiam atrair Red Eye. Ela desejou que atraísse.

Guardou seus recortes e foi surpreendida por um homem atlético, que lançava um olhar enigmático para ela, enquanto elogiava seus cabelos. Seu nome era Cley e antes que percebesse, estavam em uma agradável conversa regada pela atração. 

Depois desse encontro casual, Anastácia voltou para o hotel deixando seu telefone com Cley. Chegando lá, pegou suas fotos do álbum de recordações. Não precisava mais delas. Destinou todas as fotos ao fogo e quando tudo acabou, pegou o álbum, agora vazio, e colou seus recortes de assassinatos. Era aquilo que ela queria recordar.

Olhou-se então no espelho, e se viu bonita e sorridente. Foi um dia longo, intenso, em que muita coisa mudou, o melhor da sua vida. O primeiro de sua nova vida.

Então pensou, olhando para seu novo álbum, "Eu poderia fazer isso, sim, eu certamente poderia...."
Anastácia estava se preparando para olhar nos olhos da morte novamente.


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Esse conto foi baseado no conto da Red Eye, escrito pela Camila Mateus, do Blog Tá na Nuvem.
Os personagens principais foram descaradamente "roubados" do conto dela, que autorizou o uso deles, então, se teve ânimo de lê-lo inteiro e se tiver gostado, leia também o conto dela, que serve como continuação da história ok?

2 comentários:

ANGIEE!! disse...

Gostei bastante Je! Eu tb escrevo contos, vc me encorajou a postar algo tb.
Eu gosto de contos mais curtos, mas essa história e muito envolvente. Estou curiosa para conhecer os teus personagens. Que tal um conto novo logo :)?
Beijos
Angelica

Portal Pattys disse...

Gostei do seu conto, continue escrevendo.
Uma ótima semana, bj
by: Veve Pink
http://portal-pattys.blogspot.com.br/

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